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ENTRADA DE EMERGÊNCIA

por Pedro Bandeira

                           


 
 

No texto de apresentação da 6ª bienal internacional de ARQUITECTURA de são paulo podemos ler: “A cidade que não possua utopias para nortear o seu desenvolvimento dificilmente conseguirá crescer de uma forma harmoniosa. A arquitectura está entre ambos, se propondo fazer a ponte de ligação entre a realidade e a utopia”.

A instalação “Entrada de Emergência”, concebida para o espaço da representação portuguesa da Bienal, resulta da associação entre o conceito de «ligação» e a casualidade de no mesmo espaço ter sido colocada uma saída de emergência não contemplada no projecto original do edifício de Óscar Niemeyer.

As saídas de emergência são, supostamente, a ligação mais curta entre «interior» e «exterior» o que no contexto da Bienal poderá enfatizar a ambição de aproximar a «utopia» da «realidade» ou a realidade da utopia (dependendo do sentido da ligação).

No entanto, as saídas de emergência são quase sempre ligações efémeras, cuja função se justifica apenas em caso de «acidente». Numa sociedade cada vez mais tomada por medos, a dependência da «prevenção» justifica o paradoxo de “ao se inventar o barco se estar, simultaneamente, a inventar o naufrágio”.

Tal como Niemeyer, Le Corbusier não pensou em «saídas de emergência» para a Capela de Ronchamp, pelo menos a julgar pelos padrões actuais de segurança: no início de Março deste ano estava a ser fixada sinalética de emergência (caixas de acrílico com autocolante verde) nas portas de um edifício cuja única coisa que tem para arder é betão armado. Aparentemente, já nem os católicos acreditam na protecção divina; afinal não é para dentro da igreja que se corre em caso de acidente? A sinalética não deveria ser antes colocada no exterior do edifício?

Os alçados de vidro do edifício da Bienal evocam, dentro do imaginário modernista, uma vontade de dissipar a dicotomia interior/exterior. Paradoxalmente, a desmaterialização do alçado numa pele quase invisível, não invalidou a existência das saídas de emergência que encontramos no edifício. Diversas metáforas poderão ser construídas a partir desta situação: uma primeira evoca as contradições e dificuldade que a arquitectura modernista (utópica por excelência) encontrou no confronto com as diferentes realidades sociais “exteriores”, o que leva a questionar a “transparência” do alçado; uma segunda metáfora, refere-se especificamente ao facto de uma das portas de «saída de emergência» estar localizada na sala portuguesa, podendo esta representar a diáspora que tem atingido recentes gerações de emigrantes brasileiros que procuram em Portugal Comunitário a sua sobrevivência. Uma terceira metáfora, claramente mais optimista, refere-se ao enunciado da própria Bienal, “a arquitectura é o que está entre utopia e realidade” é, portanto, a «saída de emergência».

No entanto, com a instalação «Entrada de Emergência» pretende-se inverter o sentido da emergência. Se a “saída” era o percurso da utopia “interior” à realidade “exterior”, a “entrada” será o percurso da realidade à utopia: qualquer coisa como voltar a crer na protecção “interior” de Ronchamp. Neste sentido, e apenas neste sentido, «Entrada de Emergência» será um projecto que privilegia o risco e a experimentação inerentes à utopia em prejuízo do medo e do pragmatismo (tantas vezes frio e desumano) que caracteriza a sociedade ocidental. Mas esta não será uma utopia desvinculada ingenuamente da realidade, a sua ligação estará enfatizada por uma reivindicação de desejo que não pode ser exclusiva do arquitecto: o “exterior” terá que contaminar o “interior”; e nesse sentido “entrar” torna-se emergente.

A instalação «Entrada de Emergência» será constituída por 4 condutas, normalmente usadas para despejo de entulho de obras, fixadas a uma estrutura de andaimes de forma a simular a ligação entre o exterior e o interior. Para enfatizar o sentido de entrada as condutas deverão “aspirar”, ao contrário de “despejar”. Consequentemente, vamos encontrar no espaço da representação nacional pedaços de terra com plantas do jardim exterior ao edifício da Bienal. Pretende-se que a paisagem urbana deixe de ser mera cenografia emoldurada pelos caixilhos do alçado para passar a ser interveniente no espaço da Bienal.

 

 

        

   
Entrada de emergência  
 

 

 

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