Exposição “Eclipse” de Diogo Evangelista, até 14 março, Loulé

Vasco Célio/ Stills Photography
DESCRIÇÃO:
É nesta imobilidade, onde o contorno das coisas se dilui e a sombra ganha presença como mutação de um mundo interior, que Diogo Evangelista evoca o eclipse. Pensando o espaço específico da Alfaia através da luz solar que define o Algarve, o artista convida-nos a habitar este fenómeno tanto na sua dimensão astronómica como na sua condição de suspensão provisória da certeza.
A obra desdobra-se como uma sombra intangível; uma imagem em movimento que transborda do quadro físico para se expandir no tempo de quem a observa. No ponto onde o espaço se densifica e a distância se torna tangível, propõe-se um exercício de cegueira deliberada — já presente no trabalho de Evangelista — que nos permite perceber a luz que só se manifesta quando o mundo, por um instante, decide apagar-se.
Nesse impasse, o apagão funciona como portal. É o momento inesperado em que as redes colapsam e os fluxos são interrompidos, deixando-nos em espanto perante o silêncio. Ao adentrarmos na galeria, cruzamos um umbral onde a alienação de Antonioni encontra a urgência dos antigos Ajq´ij, os Guardiões do Tempo da cultura Maia. O eclipse, aqui fragmentado em espelhos que multiplicam a ausência, remete-nos para o conceito de "Sol Roto" maia: uma fratura no ciclo que exige do observador não a passividade, mas a consciência de que é parte integrante desta cosmologia. No magnetismo dos reflexos, o espetador vê-se assim devolvido a si próprio, confrontado com o tempo atemporal da tecnologia que nos desconecta da escala humana.
Esta figura do Guardião, aquele que vigia a luz na iminência da sua perda, não surge aqui de forma isolada, mas como a maturação de uma continuidade na obra de Evangelista.
Das estruturas orgânicas aos exercícios de cegueira, a constância das suas preocupações gravita sempre em torno da vulnerabilidade humana perante o cosmos e a tecnologia. É nesta geografia de tensões que a instalação opera como um altar contemporâneo de resistência. Um espaço lumínico de pausa e intimidade — tal como os templos ou antigos santuários — que procura tornar visível o invisível e o transcendental.
Atravessar esta exposição é habitar o hiato para descobrir que, quando as redes e a tecnologia se retiram, resta-nos o corpo e a espiritualidade. Este guardião do tempo não deixa de temer a sombra, pois reconhece nela o prelúdio indispensável do renascimento; ao sairmos do portal, levamos connosco a luz que só a repetição ritualística da sombra nos permitiu verdadeiramente reencontrar.
O eclipse não é um final, mas um momento de transmutação e regeneração, num momento em que o mundo está num processo de autodestruição e em crise profunda.
No paradoxo entre a nossa fragilidade e a escala do universo, a luz só recupera o seu peso sagrado após termos aprendido a decifrar a densidade do escuro. Assim, na escuridão do espaço que resta, também nós percecionamos, hoje, a formiga que por momentos quis devorar o Sol, para o restituir num entendimento mais pleno da natureza e da nossa escala perante ela.
Leonor Lloret
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FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA:
Exposição de Diogo Evangelista
Curadoria de Leonor Lloret
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LOCAIS, DATAS E HORÁRIOS DE APRESENTAÇÃO:
Associação Alfaia
Rua Brites de Almeida nº18 8100-679 Loulé
Até 14 de março
Quinta e sexta-feira - 14h30 às 18h00
Sábado - 10h30 às 13h30 e 14h30 às 18h00
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INFORMAÇÕES SOBRE BILHETEIRA:
Entrada gratuita
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