"Lágrimas para um Mundo Novo em Travessia", 19 setembro, Porto

Dança
"Lágrimas para um Mundo Novo em Travessia", 19 setembro, Porto

© Hugo Calhim Cristóvão
 

NuIsIs ZoBoP estreia no Porto “Lágrimas para um Mundo Novo em Travessia”, uma criação de dança contemporânea sobre a água e o legado que deixamos às gerações futuras

A NuIsIs ZoBoP apresenta, no próximo dia 19 de setembro, às 15h30, no Parque das Águas, no Porto, “Lágrimas para um Mundo Novo em Travessia”, uma nova criação de dança contemporânea de Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão, interpretada por Lucia Marrodan. A obra, concebida especialmente para esta ocasião, terá estreia absoluta no âmbito da programação das Atividades de Educação Ambiental promovidas pela Águas e Energia do Porto | Pavilhão da Água, integrada nas iniciativas da Bandeira Azul 2026.

No ano em que se assinalam os 40 anos da Bandeira Azul, sob o tema «Cápsula do Ambiente», a NuIsIs ZoBoP responde ao desafio de pensar o legado que deixamos às gerações futuras e a relação profunda entre a vida humana e a água através da criação artística.

Em “Lágrimas para um Mundo Novo em Travessia”, a água surge simultaneamente como origem, memória e matéria do imaginário. Da lágrima ao oceano, da cápsula amniótica às profundezas marinhas, o corpo percorre uma paisagem física e onírica, atravessada pelo inconsciente, onde os diferentes estados da água se tornam imagem de processos de transformação, perda e renascimento.

A criação estabelece um diálogo entre a dança e um conjunto de referências provenientes da literatura, da filosofia e da psicanálise, convocando autores como Arthur Rimbaud, Sophia de Mello Breyner Andresen, Virginia Woolf, Sigmund Freud, Emmanuel Levinas, Maurice Merleau-Ponty e Gilles Deleuze. Neste cruzamento de linguagens e pensamentos, a água é entendida como arquivo de memórias, matéria de transformação e elemento de passagem para um mundo ainda por construir.

Concebida especificamente para esta iniciativa, a obra propõe uma travessia poética e sensorial em torno da água enquanto condição de vida e espaço de transformação. Através do corpo em movimento, a dança torna-se lugar de reflexão sobre o cuidado, a responsabilidade coletiva e a capacidade de imaginar outros futuros.


SINOPSE

"Um corpo composto por setenta por cento de água atravessa dois espaços de contenção extrema: a cápsula amniótica e a fossa oceânica. Entre ambas a lágrima circula, ínfima porção de oceano que um corpo pode conter, água íntima que se faz visível no rosto e regressa, salgada, ao imenso de onde veio. Na voz de Gaston Bachelard (L'Eau et les Rêves), a água surge como imaginação material, devaneio primordial que dissolve as fronteiras entre o consciente e o abissal. A lágrima é o seu instante mais concentrado, o ponto em que o oceano aprende a ver. "São lágrimas de Portugal", escreveu Pessoa. Sal histórico, herança líquida que a peça toma como matéria coreográfica.

Há mais de mil anos que a branca Ofélia de Rimbaud desce o longo rio negro, com os seus véus, enquanto os ventos das grandes montanhas sussurram uma liberdade maior. Nesse corpo flutuante sentimos uma figura de travessia: um trânsito entre margens, estados e mundos, no qual a aparente queda guarda um nascimento. O movimento percorre os estados da água como estados da acção. Solidificação, trauma cristalizado que endurece e se repete como memória congelada, em diálogo com Freud e o recalcamento. Liquefação, fluxo contínuo no qual o corpo perde contornos e se reorganiza em correntes submersas. Evaporação, despossessão necessária e rarefacção do eu, a dissolução. Ainda a desidratação, lucidez brutal, secura extrema, redução ao essencial.

Dançar a sede rodeado de oceano remete para a Vontade insaciável de Schopenhauer, a abertura vulnerável ao Outro em Levinas, o vasto indiferente de Raul Brandão (Os Pescadores) que devora e devolve o corpo como cápsula biológica frágil. Nas profundezas da Fossa das Marianas, sob onze mil metros de pressão, na escuridão absoluta, a vida insiste; a pressão hidrostática torna-se assim qualidade coreográfica, excesso de presença, compressão, abraço mortal. A carne do mundo de Merleau-Ponty, o devir-imperceptível de Deleuze sustentam um corpo que se faz corrente, membrana porosa, trânsito contínuo entre interior e exterior, polifonia submersa em diálogo com The Waves de Virginia Woolf: "I am not one and simple, but complex and many". A erosão da forma dá à dança o seu tempo, o de uma matéria que se repete e, repetindo-se, se dissolve, tal como a água desgasta a pedra e a memória desgasta o momento.

O mundo novo do título não preexiste à travessia: é a água, labirinto percorrido, que o funda. "Dentro do mar há um contínuo canto", escreve Sophia de Mello Breyner. É esse canto que a peça persegue entre o apelo das sereias (Homero) e a escuta silenciosa, num espaço onde som e pressão se conjugam como aquilo que vibra. A dança emerge como espuma, quebra e retorno. Cada lágrima feita dança, vertida em dança, anuncia a água futura, o corpo que a atravessa. Com essa travessia funda a margem que ainda não existe." Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade


FICHA ARTÍSTICA 

Direção, Coreografia, Dramaturgia e Formação 
Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade

Dança e Interpretação 
Lucia Marrodan 

Figurinos 
UN T 

Desenho de Som 
João Oliveira & NuIsIs ZoBoP 

Produção Executiva  
Cristina Aguiar & NuIsIs ZoBoP 

Apoio 
Águas e Energias do Porto

A Nuisis Zobop é uma estrutura financiada por República Portuguesa - Cultura, Juventude e Desporto | Direção-Geral das Artes


LOCAIS, DATAS E HORÁRIOS 

19 setembro 2026 (sábado), às 15h30
Parque das Águas, Porto


CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA

M/6


MAIS INFORMAÇÕES

nuisiszobop.com