As Telefones, de Djaimilia Pereira de Almeida e encenação de Zia Soares, nos Jardins do Bombarda a 9 e 10 de outubro

Teatro
As Telefones, de Djaimilia Pereira de Almeida e encenação de Zia Soares, nos Jardins do Bombarda a 9 e 10 de outubro

As Telefones © Anita Gonçalves

Ao longo da vida falam sem se ver, imaginam-se: o rosto, o cheiro, as roupas, a maquilhagem, os gestos. A distância transforma-as em personagens, cada telefonema uma projeção e uma encenação em que se performam mutuamente.
As Telefones é um vislumbre de duas mulheres, mãe e filha, que mapeiam e edificam a intimidade de um amor fraturado e devorador. Entre o fumo dos cigarros e o vapor dos banhos e das panelas ao lume erguem uma casa titubeante onde se acumulam as orações exorbitantes, os frémitos e os silêncios.

Duas mulheres, mãe e filha, separadas por um oceano de má memória, ligadas por telefones ao longo de três décadas. A sua ligação interrompida acompanha a história dessa invenção extraordinária.
Espectáculo sobre o que é ser mãe e ser filha à distância, Bia e Estrela talvez não se conheçam e sejam meramente duas estranhas que falam uma com a outra, no presente, várias vezes por dia.
Envelhecendo, apartando-se cada vez mais, mãe e filha são o teatro que é a projecção que fazem uma da outra e o teatro de um amor que não é senão sombra, espelhos, vídeo e mentiras.
E contudo amam-se, ainda. Contudo, ainda é possível o amor. Talvez iluminar esse milagre seja a virtude desta criação de Zia Soares, milagre maior do que a chegada das pestes anunciada pela mãe à filha, maior do que o regresso do próprio criador.

Djaimilia Pereira de Almeida

Bia e Estrela, filha e mãe, nascem e crescem na voz, ao telefone, ao longo de uma vida inteira, entre o dito e o ouvido, entre o real e o projectado.
O palco talvez seja a cabeça de Bia: a partir da sua interioridade, o espectáculo se manifesta como evocação. Bia fala a cena enquanto a vive, mobilizando memória e imaginação para materializar a relação com a mãe e reivindicar o direito à sua própria abstração.
Nesta arquitetura de hiper-consciência, surge a figura de uma mulher como o braço que edifica. Enquanto as palavras de Bia e Estrela atravessam o Atlântico, esta mulher ergue os alicerces de uma casa, uma construção feita de herança e ritual: o banho de sal, o vapor das panelas, a oração: tecnologias de sobrevivência.
Há, neste universo, uma dimensão profundamente espiritual e fabulatória. A fé, o medo, o delírio, a doença e o humor coexistem como formas de lidar com a ausência, com a precariedade e com heranças maiores, pessoais e históricas.
No âmago deste processo, o olhar de mulheres negras sobre os seus próprios imaginários e sobre a sua intimidade firma-se como território de soberania, onde o corpo se revela no silêncio e no mistério da sua própria alma.
As Telefones é o gesto de quem insiste em construir uma casa feita de voz, um amor que sobrevive ao ensombramento da vida.

Zia Soares

 

Sala Estúdio Valentim de Barros, Jardins do Bombarda | 9 e 10 OUT | 21H ; 11 OUT | 16H | BILHETES

Fórum Cultural José Manuel Figueiredo (Moita) | 14 NOV | horário a definir 

Auditório Municipal do Fórum Cultural do Seixal | 19 NOV | horário a definir

 

Texto: Djaimilia Pereira de Almeida
Dramaturgia, Adaptação, Encenação: Zia Soares
Interpretação: Lucília Raimundo, Sara Fonseca da Graça, Zia Soares
Instalação Cenográfica, Figurinos: Neusa Trovoada
Design de Iluminação: Carolina Caramelo
Música e Design de Som: Xullaji
Imagens em Movimento: Carolina Caramelo, Rui Xavier
Video Design: Cláudia Sevivas
Ilustração, Animação: Camila Reis
Assistência ao Movimento: Lucília Raimundo
Engenharia de Som: Jorge Gonçalves
Maquilhagem: Zózi Zózimo
Assistência à Cenografia: Marco Peixoto
Assistência aos Figurinos: Fernanda Santos
Assistência à Produção: Mariana Frazão, Marta dos Santos
Produção: sowing_arts
Co-produção: Teatro Constantino Nery
Apoios: Câmara Municipal da Moita / Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, Câmara Municipal de Matosinhos, Câmara Municipal do Funchal / Teatro Baltazar Dias, Câmara Municipal do Seixal / Fórum Cultural do Seixal, Jardins do Bombarda, Nêga Filmes, Polo Cultural Gaivotas | Boavista, Rede Afrolink
Projecto financiado por Câmara Municipal de Lisboa, República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes
Agradecimentos: Patrícia David, Teatro Nacional D. Maria II

M/14 | 90 MIN