"Quando Vem a Taciturna De Limiar Em Limiar O Presente Frágil", pela Nuisis ZoBoP, 14 de fevereiro, Festival GUIdance, CCVF, Guimarães

© Hugo Calhim Cristóvão
Nuisis ZoBoP e o GUIdance: uma relação que se constrói no tempo
O Centro Cultural Vila Flor (Guimarães) acolhe em estreia absoluta "Quando Vem a Taciturna De Limiar Em Limiar O Presente Frágil", de Joana von Mayer Trindade e Hugo Calhim Cristóvão
"No princípio era o corpo…", poderia ser uma paráfrase adaptada à asserção de carácter mais religioso para uma condição geral da dança. O corpo expressa também ele um 'verbo', afinal a palavra substituída na frase matriz, pela fisicalidade e pelo movimento, através da sua fórmula interpretativa que a anatomia traduz de forma mais simbólica e viva de comunicação não verbal.
O prólogo acima referenciado pode constituir um ponto de partida para o que agora se anuncia, afinal, a matéria conceptual que se vai apresentar em palco, essa poética dos corpos, feita artefacto "em movimento".
Com efeito, e a fazer jus a essa condição, "em movimento", a Nuisis ZoBoP, companhia de dança contemporânea que, a partir do Porto, desenvolve o seu trabalho, regressa ao Festival GUIdance pela quarta vez, inscrevendo novamente o seu corpo artístico num território que lhe é já relacional e simbólico.
Vai agora entrar em regime de itinerância – “em movimento” numa outra aceção, a do ‘circuito geográfico’ de apresentação múltipla do espetáculo em diversas coordenadas – com a peça coreográfica Quando Vem a Taciturna De Limiar Em Limiar O Presente Frágil, cuja estreia absoluta se realiza no próximo dia 14 de fevereiro, às 18h30, no Pequeno Auditório, CCVF – Centro Cultural Vila Flor, no âmbito do Festival GUIdance.
Esta apresentação do espetáculo num dos mais conceituados festivais da área da dança contemporânea em Portugal é encarada pelos criadores, Hugo Calhim Cristóvão e Joana von Mayer, como algo que “representa uma oportunidade singular de apresentar e divulgar o mais recente trabalho da companhia ao público que o GUIdance sempre congrega: o desígnio passa por aproximar a comunidade local da pesquisa artística desenvolvida ao longo de residências nacionais e internacionais”.
Após a participação em Guimarães, a peça que já está despertar o interesse de diversas estruturas/companhias e espaços de apresentação um pouco por todo o país, vai fazer um périplo pelo território nacional (e não só), com datas já agendadas para o Teatro Aveirense, Aveiro (20 de fevereiro), Teatro-Cine Pombal (28 de fevereiro), Teatro Stephens, Marinha Grande (14 de março), Festival DDD – Dias Da Dança, Porto (9 e 10 de abril), Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco, (2 de abril), Casa das Artes de Famalicão (17 abril), Teatrão, Coimbra (30 de abril) e Teatro Rosalía de Castro, Corunha, Galiza/Espanha (30 de maio).
“Quando Vem a Taciturna De Limiar Em Limiar O Presente Frágil” resultou, enquanto projeto, de uma residência artística contínua, acolhida e realizada em diversos locais de Portugal, como Casa Varela (Pombal), Teatro Viriato (Viseu), Teatro Stephens (Marinha Grande) Fábrica Asa do Centro Cultural Vila Flor (Guimarães), Armazém 22 – Kale (Vila Nova de Gaia), Teatro Aveirense (Aveiro) e o Centro de Criação e Investigação da Nuizis Zobop, no Espaço Agra (Porto).
Importa, por outro lado salientar, em abono da verdade, que esta aposta da Nuisis ZoBoP se inscreve na perfeição no domínio da programação do GUIdance e de um certo lema, mais ou menos assumido, que o festival vimaranense contempla, o de constituir “A sincronização da diversidade”. Basta pensar para o efeito que a peça integra e foi pensada para um elenco internacional de quatro bailarinas e explora em termos de conteúdo versado zonas de transição e indefinição - manifestações e emoções e sentimentos múltiplos cuja expressão se traduz quase como um binómio: entre vigília e sono, vida e morte, inspiração e expiração.
A gesta criativa da peça coreográfica tem como mote inspirador uma panóplia de referências literárias e míticas, as evocações às Mahavidyas, deusas ferozes da sabedoria impura que dói e que ri, bem como incursões por diferentes universos de gente incontornável das letras, casos de Fernando Pessoa, Camilo Pessanha, Al Berto e Paul Celan, que no seu conjunto permitiram uma base de estruturação e construção narrativa cujo território poético se afirma por uma densidade e simbolismo assinaláveis. Da teoria da inspiração à prática da transpiração há todo um [longo] processo, que o público irá sufragar nas apresentações.
A proposta do espetáculo sugere de igual modo, isto para lá do seu carácter estético, uma reflexão crítica sobre o presente, ‘um agitar das águas’ como popularmente é descrito. O repto passa pelo debate e questionamento da existência de uma complacência institucional vigente, sendo igualmente tópicos de abordagem a autorreferência no ecossistema artístico e a fragilidade ética dos sistemas culturais. A reforçar e a fazer vingar as ideias precedentes, o projeto Dança e Filosofia: Ética, Raízes e Horizontes do Presente Frágil recusa a simplificação e defende a coerência entre estética e rigor filosófico. Trata-se de uma questão de posicionamento que vai para lá dos vetores estéticos e artísticos, aliás, como se infere.
Uma das características mais marcantes e distintivas da Nuisis Zobop, defendida pelos seus diretores artísticos Hugo Calhim Cristóvão e Joana von Mayer, radica numa dinâmica de atuação que aposta em três eixos primordiais aos quais se junta um outro tópico não menos importante a este vértice. O método aposta na investigação enquanto demanda e exploração de processos inovadores para o performer, limites e entre visível e invisível; a formação com recurso a masterclasses de imersão prática; a criação através de obras com forte dimensão simbólica e filosófica e a fase posterior de circulação em Portugal e Galiza e uma quarta alínea, que vincula, promove e explicita como uma súmula estrutural todo o processo, a edição de uma publicação de índice qualitativo que serve como memória do presente e arquivo para o futuro.
Com o apoio da República Portuguesa — Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes, a Nuisis ZoBoP, afirma-se como uma das presenças mais singulares e regulares da dança contemporânea em Portugal.
Os coreógrafos Hugo Calhim Cristóvão e Joana von Mayer Trindade estão disponíveis para entrevistas sobre o processo criativo, as residências artísticas e as questões éticas e estéticas levantadas pela obra. Estas entrevistas representam uma oportunidade singular de apresentar e divulgar o mais recente trabalho da companhia ao público, aprofundando a compreensão da obra e da pesquisa artística desenvolvida pela Nuisis ZoBoP.
SINOPSE
“Como dançar sobre ruínas, exumar arqueologias estupradas, em comunhão exalando e destilando melancolias e nostalgias? Um palimpsesto a sangrar, bordado em nervos de resistência? Como metamorfose e presença frágil irrompe uma hypokeímenon poética no âmago da phýsis, um eidos evanescente entre o devir e a imutabilidade, kairós que tremula a Taciturna. Presença telúrica que mutila e acaricia movendo-se de limiar em limiar com a ferocidade de um espasmo, coito em sussurro com o vazio que ascende, abraço em voo e invasão sutil, ruptura tangível, lâmina de erupção surda, chama refletida em água, punhal que rasga e cega as línguas da pele com ternura, morde músculos segundo a segundo. Convulsiona limiares-feridas onde o presente se desagrega, se multiplica em centopeias de medo, ser-para-a-morte, ser-para-o-gozo, entrelaçado de circunvoluções que se violam uma a uma, regurgitando e vomitando com violência o frágil vazio do agora. Duplo sentido de tempo e dom, o presente é uma oferenda precária que se devora na voracidade, na fúria suavizada por melancolia que amarra e lambe momento a momento o instante e o fim. O eterno conflito entre passado, presente e futuro, apenas um orgasmo ontológico que de encruzilhada em encruzilhada confronta e excita a finitude. O presente frágil macera-se em profanações com a consciência dilacerada de uma flor decapitada com os dentes. Dança-se entre limiares – entre ser e não-ser, desejo e vazio, vida e morte, a transitoriedade uma carne amada e estilhaçada que revela a beleza do caos que nunca volta para trás. De limiar em limiar, a dança dá a parir momentos irrepetíveis não canceláveis pelo terror, metamorfoseando urgência apocalíptica em sobrevivência sobre os cadáveres, transmutando fragmentos em infinitudes vulneráveis, colapso em ressureição, fim como génese. A criação invoca as Mahavydias, deusas ferozes da sabedoria impura que dói e que ri, Fernando Pessoa delirando "Oriente a oriente do Oriente", Camilo Pessanha exalando melancolia entre lençóis de linho, Al Berto destilando medo em éter poético, Paul Celan invocando a "Canção de uma Dama na Sombra". Lamento que perdura quando se cala para sempre, cordas que na ausência vibram mais e mais. Quem ressurge das cinzas?”
Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade
FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA
Direção, Coreografia, Dramaturgia e Formação Hugo Calhim Cristóvão & Joana von Mayer Trindade| Dança e Interpretação Sara Miguelote, Lucia Marrodan, Ethel Desdames e Marta Pieczul| Desenho de Luz Luís Ribeiro| Figurinos UN T| Cenografia NuIsIs ZoBoP & UN T| Desenho de Som João Oliveira & NuIsIs ZoBoP | Teoria e Filosofia Hugo Calhim Cristóvão, Joana von Mayer Trindade, Celeste Natário, Carlos Pimenta, Cláudia Marisa, Cristina Aguiar, Ezequiel Santos, Hugo Monteiro, Rui Lopo, Mário Correia, Nuno Matos Duarte, Elter Manuel Carlos, Chris Page, Afonso Becerra, Armando Nascimento Rosa, Luís Ramos e Sofia Vilar Soares | Vídeo Os Fredericos| Fotografia Alípio Padilha e João Peixoto | Produção Executiva Cristina Aguiar & NuIsIs ZoBoP | Coproduções: Casa das Artes de Famalicão, Centro Cultural Vila Flor – Guimarães, Teatro Stephens – Marinha Grande, Oficina Municipal do Teatro – Coimbra, Teatro Municipal de Bragança – Algures a Nordeste Festival de Dança Contemporânea, Casa Varela – Centro de Experimentação Artística-Cineteatro Pombal e Teatro Municipal do Porto – Festival DDD |Apoio: Teatro Municipal de Aveiro, Teatro Rosalía de Castro, Corunha | Residências Artísticas Casa Varela – Centro de Experimentação Artística, Kale/Armazém 22, Centro de Criação do Candoso / Fábrica Asa – Guimarães, Teatro Viriato – Viseu, Casa Museu Afonso Lopes Vieira – Marinha Grande, Teatro Aveirense, Centro de Criação e Investigação Nuisis Zobop – Porto.
Parcerias: Instituto de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Instituto de Sociologia da Universidade do Porto - FLUP, Escola do Superior de Educação do Porto, Escola Superior de Arte Dramática da Galiza, ESMAE-Escola Superior Música e Artes do Espetáculo do Porto |Teatro Helena Sá e Costa, Universidade Lusófona do Porto, Fórum Dança e Junta de Freguesia do Bonfim e Espaço Agra.
LOCAIS, DATAS E HORÁRIOS
14 fevereiro 2026
Centro Cultural Vila Flor, Guimarães
→ a apresentação integra a programação do GUIdance - Festival Internacional de Dança Contemporânea
Duração: 80 minutos
CLASSIFICAÇÃO ETÁRIA
M/6
MAIS INFORMAÇÕES
A Nuisis ZoBoP é apoiada pela República Portuguesa - Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes
